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João Araújo: ícone da cultura e patrimônio de Ipiaú


Ele nasceu sob o sol de Jequié, no dia 31 de agosto de 1940, quando a marchinha “Mamãe Eu Quero”, interpretada por Carmen Miranda, conquistou sucesso mundial e tornou-se uma das mais conhecidas canções brasileiras de todos os tempos. Foi banhado nas águas do Rio de Contas e embalado ao canto dos passarinhos da caatinga. Doces cantigas de ninar. Quis o destino que a música, em seus diversos gêneros e ritmos, estivesse sempre na sua companhia. Seguindo em trilhas sonoras, tornou-se artista, comunicador por excelência, grande produtor de espetáculos.

 

Ainda menino, já morando em Ipiaú, João, o filho caçula de dona Anatildes Araújo de Souza e seu Oscar Rodrigues de Souza, brincava de locutor de parques de diversões, ensaiava ser cantor, sonhava com palcos, palanques, instantes de um dia assim ser. E foi! E é! João Araújo de Souza, figura impoluta, gente boa, ícone da cultura ipiauense, voz que não perderá o tom nas lembranças de muitas gerações.

Pai de Fábio, Flávio e Fágner, marido de Jussara, avô de Keylla, Maria Luíza e João Pedro de Souza. Neto do maestro João Ferreira de Araújo, que regeu uma das mais tradicionais filarmônicas de Santo Antônio de Jesus. A música no sangue, a poesia na genética. Tinha a idade de 20 anos, quando se transferiu para Salvador e ali ficou por uma década. Tempo suficiente para curtir a boemia, conhecer artistas, começar a concretizar os sonhos da juventude, alicerçar projetos.

Trabalhou como cobrador de uma loja de louças na Baixa dos Sapateiros e exerceu a mesma função na empresa Brasilgás. Sua voz impostada chamou a atenção de um amigo que tinha um serviço de sonorização mecânica e lhe convidou para auxiliar na cobertura de uma das edições da festa da Independência da Bahia, no Campo Grande. O prefeito de Salvador era Antônio Carlos Magalhães. Daquele 2 de julho em diante, a vida de João tomou novos rumos.

No carnaval de 1967, o locutor João Araújo já estava em um posto de sonorização no Relógio de São Pedro, transmitindo o evento. Do Campo Grande à Praça da Sé, ouvia-se a sua voz nas inúmeras caixas de som instaladas no percurso. A folia aguçou sua tendência de cantor e compositor. Desse modo resolveu participar de um concurso de música carnavalesca no Clube Fantoches da Euterpe, ficando em terceiro lugar com a marcha rancho ”Vem Colombina”, acompanhada pela orquestra do maestro Carlos Lacerda.

Dentre os jurados estava o célebre compositor, poeta, letrista, maestro, jurista, jornalista, cantor e cronista Carlos Coqueijo Torreão da Costa. Na tribuna de convidados especiais, as cantoras Maria Bethânia e Elis Regina. Também participou de uma das edições do Festival de Samba da Bahia, vencido por Antônio Carlos, da dupla Antônio Carlos e Jocafi, além do programa “Escada do Sucesso”, apresentado por César de Alencar, na TV Itapoã, canal 5, por onde já tinha passado as meninas do Quarteto em Cy e Gilberto Gil.
João não subiu até o degrau superior da escada, mas tirou muito proveito da experiência.

Em 1969, a pedido de sua mãe, estava de volta à Ipiaú. Na década seguinte, realiza diversas atividades culturais nesta cidade. Fez a locução de alguns programas da Voz de Rio Novo, dirigida por Moacir Andrade e foi “crooner” do Conjunto Musical Apollo 9, formado em 1973 pelos músicos Osório Costa, Leão, Genésio, Gafieira e Toninho Eça. A entrada no Apollo foi em substituição ao cantor Humberto Castro que se desligou do conjunto para disputar o Campeonato Intermunicipal pela Seleção de Ipiaú.

Na sequência, João Araújo participou da criação do Conjunto Joedson, cuja sigla era formada pela junção das iniciais dos nomes dos sócios fundadores: J de João, O de Osório, ED de Edmundo e SOM da musicalidade.

João sempre foi um cantor eclético. No seu repertório tinha de tudo, inclusive a marchinha “Mamãe Eu Quero”, composta por Jararaca, em 1937, que ele cantava com grande entusiasmo nas micaretas do Rio Novo Tênis Clube. Do seu currículo também consta a gravação de um CD com músicas de Roberto Carlos. O disco tem o seguinte título: “João Araújo canta as canções do Rei”.
Shows de Waldick Soriano, Amado Batista, José Augusto, Jerry Adriani, Cláudia Barroso e outros artistas, foram coproduzidos por João Araújo. A maioria deles aconteceu no palco do Cine Teatro Éden.

Como não se não bastasse tudo isso, João resolveu promover festivais de música popular e os famosos programas de calouros que persistem até os dias atuais.

Em 1976, adquire seu primeiro carro de som, um fusca branco, com uma boca de alto-falante onde estava inscrita a marca da firma Jaraújo Publicidade. Antes disso, atuou no ramo comercial com a empresa de distribuição de vários produtos, inclusive jornais. A DISVAP tinha endereço na Praça João Carlos Hohlenwerger.

Por muito tempo, João Araújo se encarregou da sonorização de shows musicais e eventos sociais. Atualmente tais serviços são feitos pelos seus filhos que também são locutores.

De 1984 a 1988, João teve a sua experiência de radialista, apresentando o programa “Show da Cidade”, na Rádio Educadora de Ipiaú. Em seguida, adquire os equipamentos da “Voz do Sul” e monta sua empresa de sonorização, cujo estúdio funciona na Rua Dois de Julho, centro de Ipiaú.

OS FESTIVAIS

Numa manhã ensolarada de um certo domingo do verão do 1971, centenas de jovens lotavam o Cine Teatro Éden para assistir a final do primeiro Festival Estudantil da Música Popular de Ipiaú (FEMPI), promovido e apresentado por João Araújo e a estudante Nacilda Conceição, filha do músico Nael Conceição. O vencedor foi o cantor e compositor Jota Pinto (José Washington Queiroz Pinto), da cidade de Ubatã.

No ano de 1973, em parceria com o Grupo A4, da juventude católica, João Araújo promoveu a segunda edição do FEMPI. O espetáculo aconteceu em uma noite de muita neblina, no Estádio Pedro Caetano. Quem viu jamais esqueceu!

No corpo de jurados do II FEMPI estavam, dentre outras celebridades, o cantador Elomar Figueira Mello (de Vitória da Conquista), a atriz Nilda Spencer, o jornalista Jairo Simões e o diretor da Rádio Sociedade da Bahia, Cláudio Tavares, convidadas pelo prefeito Hildebrando Nunes Rezende. A primeira colocação coube ao cantor e compositor Artiludo, da cidade de Jequié, com a música “Futuroscopia”, acompanhada pelo Conjunto Extra Som.

Outras edições do FEMPI aconteceram no Ginásio de Esportes Clériston Andrade, mas nenhuma tão concorrida e glamorosa como aquela da noite neblinada de 1973.

CALOUROS

De todas as iniciativas culturais de João Araújo, o Programa de Calouros, também chamado de Festival de Talentos, foi o que ganhou maior projeção. A tradição se repete há mais de 40 anos, geralmente no mês de agosto, com apresentações em praça pública, que reúnem centenas de pessoas. Bons artistas foram revelados pelo programa. Desse elenco constam os nomes de Tito da Cruz, Zé Paulo, Fábio Sul , Bal, Gerusa Lassiê, Alex Alves, Luis Terra Nova, Viviane e a menina Isabella Jesus Santos, 9 anos, estudante da Escola Nova Geração. Impossível pensar o Show de Calouros sem João Araújo e vice-versa.

PALANQUES POLÍTICOS
A privilegiada voz de João Araújo foi disputada por políticos que a queriam apresentando comícios, bate-papos e outras atividades de campanhas eleitorais. Esteve nos palanques de Hildebrando Nunes Rezende, Waldemar Sampaio e José Motta Fernandes. Foi duas vezes candidato a vereador e não deixou de atuar como cabo eleitoral.

OS DESTAQUES
Todos os anos, em duas ocasiões distintas, João Araújo presta homenagens aos cidadãos ipiauense e empresas que sobressaíram nas suas diversas atividades, e às mulheres em destaques na sociedade local. Entrega troféus e diplomas de honra ao mérito, realiza concorridas festas. Infelizmente a pandemia impediu que isso ocorresse em 2020. Enquanto homenageia, João é homenageado com o carinho e a gratidão do povo. A voz e a arte de João Araújo, nas suas diversas representações, proporciona, para as atuais e futuras gerações, um legado de muita agitação cultural, uma abrangente forma de expressão popular. O conjunto da sua obra é Patrimônio Imaterial de Ipiaú. *José Américo Castro 

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